
Crescimento do mercado imobiliário
O explosivo crescimento do crédito imobiliário está proporcionando uma quase invisível revolução econômica no Brasil e movimentando de forma eufórica o mercado de imóveis do país.
Em boa medida essa revolução tem pouco a ver com medidas governamentais e muito com a mudança de estratégia comercial dos bancos. Com a redução das taxas de juros, os bancos brasileiros estão sendo forçados a exercitar aquilo que é a sua principal função em economias desenvolvidas: emprestar dinheiro. Obrigados a substituir os estratosféricos lucros obtidos ao longo dos anos com títulos públicos, as instituições financeiras buscam alternativas. Aprenderam a conviver com a redução da inflação a patamares civilizados, posicionaram-se bem no microcrédito voltado às classes de menor renda, no crédito pessoal e no crédito consignado em folha salarial. Preparam-se agora para entrar no financiamento de imóveis, o último grande reduto ainda inexplorado e o que apresenta as melhores expectativas de ganho no longo prazo. Além dos bancos, os fundos de pensão e as seguradoras também são boas fontes para o financiamento imobiliário.
O mercado imobiliário é um dos setores com maior capacidade de impulsionar a economia em qualquer país tanto pela estrondosa capacidade de gerar empregos (e, por conseguinte, renda) como por envolver uma enorme cadeia de produção que vai do cimento e tijolo até os sofisticados objetos de decoração. Foi o mercado imobiliário (ao lado do turismo) que serviu como base do desenvolvimento da Espanha nas últimas três décadas. É também o mercado imobiliário que sustenta o mais novo surto de expansão econômica dos Estados Unidos, a ponto de transformar-se no mais novo epicentro de temores de uma nova bolha.
Segundo estudo feito pela Fundação Getúlio Vargas (FGV Projetos), o déficit habitacional no Brasil é de 7,9 milhões de moradias (necessárias para substituir os 3,7 milhões de moradias inadequadas e 4,2 milhões de casas onde vivem mais de uma família – cohabitação). Some-se a isso o crescimento demográfico que demanda mais moradias. A mola propulsora para a impulsionar esse gigantesco mercado é o crédito imobiliário. Vários fatores têm contribuído para esse cenário positivo do mercado imobiliário. Do lado público, o governo fez sua parte, estabelecendo novas regras que facilitam a ação da iniciativa privada, boa parte delas reunidas no pacote lançado em setembro. Investidores estrangeiros passaram a investir no setor e as grandes construtoras, imobiliárias e incorporadoras se modernizaram, melhoraram sua governança corporativa e captaram milhões de reais com lançamento de ações na BOVESPA. No Brasil, o crédito imobiliário representa apenas 5% da carteira de empréstimos dos bancos, enquanto nos países desenvolvidos essa proporção chega até a 50%. Nesses países, há um constante estímulo governamental para o financiamento de imóveis. Na Inglaterra, o crédito imobiliário representa 75% do PIB, nos Estados Unidos 69%, no Chile 17%, na Espanha 46% e na China 11%. No Brasil o crédito imobiliário representa apenas 2% do PIB.
Investimentos no setor imobiliário promovem um círculo virtuoso, pois estimula o mercado de trabalho, eleva a renda, expande o consumo, aumenta a arrecadação de impostos e, naturalmente, melhora a qualidade de vida das pessoas. Mesmo com a expansão do mercado imobiliário, até agora a oferta de crédito se concentrou nas classes de alta e média renda. Ainda precisa chegar às classes de menor renda, o que confirma a tendência de que o financiamento à moradia é um grande negócio no médio e longo prazos.
A expansão do crédito imobiliário e o bom momento que vive o setor não eximem os governos federal e estaduais de continuarem investindo na construção de moradias para as famílias de baixa renda. Boa parte delas não terão acesso ao crédito, outras demorarão um bom tempo para adquirir as condições de tomar o crédito para construção de sua moradia.
* VIVALDO LOPES é economista, pós-graduado (MBA) em gestão financeira de empresas pela FIA/USP, consultor da Fundação Getúlio Vargas - FGV
vivaldo@uol.com.br
19/11
Fonte:Diário de Cuiabá
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